9 de fevereiro de 2012

MOMENTOS CANON- AFUNDANÇO EM CADEIA!

Eram quase as 7 da tarde e o meu BB tocou.


Era a tisuna: “ahh..desculpa lá mas temos aqui uma situação..algo complicada”


“Como assim?”, respondo eu.


E numa voz um tantinho tremida: “bem… a S. ficou enterrada no matope, aqui no 3º bairro e eu vim com a C. ajuda-la a sair”


“Pois fizeram bem. Qual é a complicação?”


“É que também ficámos enterradas!”


Lógico, pensei eu. As nossas Anen já não sabem brincar neste matope sem ficarem atoladas…bem sabemos como são as aventuras matinais diárias, para conseguir sair aqui de casa..


“Mas não foi a nossa znen que ficou enterrada. Foi a da C.”


Hum..essa eu não esperava..aquele madza tem cara de quem aguenta uma boa luta de lama.


“Pronto, não há complicação nenhuma. Eu vou aí ajudar e levo o sr. R. Havemos de resolver logo logo”


Saio rapidamente, vou buscar o sr. R. a casa e dirigimo-nos ao local da ocorrência.


Pelo caminho…conduzo tipo motorista de um TT numa poça do tamanho do lago Ness, safo-me nem sei como, passo-lhe o carro para as mãos e vamos em auxílio das 3 mulungas. Não sem antes ter levado com uma onda de matope que entrou disfarçadamente pela janela e se instalou no meu cabelo. A primeira da noite..


Eis que chegamos e, sucesso! Já tinham conseguido safar o 2º carro, o da C. Mas o da S…empinadíssimo, dentro duma mistura de matope, lixo, água e eu sei lá mais o quê.. uma areia movediça que à primeira vista só deu para pensar “ahhh, não….não me parece que vamos conseguir resolver isto logo logo..”


Bem, lá demos hipótese à nossa znen de socorrer o jipe da outra. Ele foi cordas a partir, sustos de pensar que o para-choque da znen ia voar, as rodas a dançar loucamente de lado, matope a voar por todo o lado (cabelo incluído, segunda da noite), canalha a gritar, homens a dar palpites: “poe peso em cima”, “ não, estica mais a corda”, “ é melhor aproximar a viatura”, “ não esqueçam empurrar a frente”…enfim, uma canseira só.


Acrescido de maningue criançada a charfurdar no meu ( e das outras mulungas) cabelo porque, claro está “ é grande!!!é maningue grande!”… no comments


Ao fim de não sei quantas tentativas e de ver o carro da S. a afundar cada vez mais e muito medo que a znen também ficasse petrificada naquele lamaçal, lá nos decidimos: “epah, isto requer ajuda de algo mais potente. Ninguém tem um camião, um tractor?”


Choveram telefonemas com pedidos de SOS para os cantos mais longínquos deste Moçambique: “ não, desculpa estou em Chicualacuala e não estou a ver quem pode ajudar”, “ lamento, todos os tractores que conheço estão longe, nas machambas”, “ será melhor desistir e tentar amanha”…carambas, mas ninguém guarda um tractor em casa, à mão de semear para estas situações?!


De repente, do nada, surge um camião. Bem, talvez carrinha a puxar pro grande seja mais adequado. Condutores…um cadinho alcoolizados E lá choveram mais orientações, mais cordas a partir, mais palpites furados, mais matope a voar (não, dessa vez não me aterrou no cabelo que já me protegi)..


Entretanto, batem as 9 da noite. No meu intimo, já sei como isto vai acabar. Teremos que passar a noite aqui, a guardar o carro e amanha tentar novamente.. respiro fundo e desejo pelo melhor.


De repente, o meu herói e salvador da noite, sr R. “ Mama, tem alguém ali que conheço, que acho pode ajudar”. E vejo-me no quarteirão ao lado, à frente da casa de alguém que se preparava para dormir, e dou de caras com um tractor com cara de ser maningue potente, com uma grade de discos (sim, ainda sei o nome ou esquecem que esta escrava Isaura um dia estudou eng Zootecnica?! :p). Um dono simpático e pronto a ajudar as donzelas. Perfeito.


E siga pra bingo! Lá vamos nós, estrada fora com o tractor a fumegar. Palmas e gritos, quando aquela multidão teve a visão da maquina potente, já a avisar “ Saiam da frente, que isso dai, é uma brincadeira de crianças para mim”.


Pronto, não vale a pena esticar uma história que no fim acabou bem. O magnifico tractor não só sacou um jipalhaço de ser sugado pela lama. Literalmente. Como ainda, salvou o camião. e tudo num espaço de 10 minutos! Sem cordas a partir nem matope a voar pro meu cabelo :p)


Conselho: qualquer projecto profissional em Moçambique deve incluir a compra de um tractor no seu orçamento, para resolver estas situações!


E não interessa se somos mulheres, baixas, sem força ou sem jeito.


O que interessa é que temos um telemóvel ligado, rede que funciona, uma boa lista de contactos e muiiiiiita lata!!!


E lá nos safemos, ao fim de 3 carros, um camião , um tractor e uma multidão de gente!


Às 10 da noite, mas pronto… lololol



8 de janeiro de 2012

MOMENTOS CANON- fotos do descanso natalicio :)

E pronto...ja se acabou o que foi bom...muito bom!!
E como a preguicite de ferias ainda se mantem, deixo apenas um pequeno registo dos momentos CANON para vosso deleite. Ou nao :p)

Amanha, labuta novamente...e ficam as paisagens paradisiacas deste meu Moçambique à espera de novo descanso.

Enjoy e..para legendas individuais das fotos, é favor enviar email :p)
Beijos a todos e...feliz 2012!!




















































































































































































































































































10 de dezembro de 2011

MOMENTOS CANON- African X-mas again!!

Tenho muito para dizer e nada de interessante :p)

Mas para os mais distraidos, é só para avisar que este ano a preta fica nos Moçambicus e vai festejar o natal de bikini! Again :))
Albierta, onde estás?!?!? Volta!!

Já sei que vem uma mala cheia de bacalhau e presunto e muitos mimos.
Será tudo recebido com muito agrado e gula! (vem presunto, nao vem?!?! espero bem que sim..)

E eu, estarei de volta, quando a vontade de reclamar voltar tambem :p)

Feliz natal familia e amigos!!! Boas festas desse lado do Equador e renas de animo para vós todos :)

23 de novembro de 2011

MOMENTOS CANON- Estou...FARTA!!!!

Estou farta da crise!
Estou farta das "medidas de austeridade"!
Estou farta da troika e do FIM!
Estou farta da depressão que isto está a causar nas pessoas em Portugal!
Estou farta das mudanças na qualidade de vida na minha família e amigos!!!
Estou farta de ser roubada pelo Estado!
Estou farta de fazer descontos para impostos e segurança social, dos quais nem eu, nem quem realmente precisa, consegue beneficiar!
Estou farta do nosso Governo!
Estou farta da impassividade do povo!
Estou farta do capitalismo e deste sistema que não funciona!!
Estou farta de ser roubada e explorada de forma tão descarada!!
Estou farta dos chicos espertos, que escapam com altas pensões e prémios pagos...com o meu dinheiro!!!

Estou.....farta..até à alma....

Claro que este ataque foi causado pelo facto de finalmente me ter decidido a ir ver o meu recibo de salário...Andava a adiar para evitar um sincope cerebral e este ataque de de fúria mas algum dia teria que ser.
Pois que traz uma linha adicional: IRS- sobretaxa extraordinária..
Nome interessante para a acção de depenar as pessoas...
O extraordinário é que a dita taxa é tão grande como o IRS normal!

ESTOU FARTA DA CRISE!!! Tenho dito.
E tenho a certeza que de algum modo, isto é ilegal! Aliás, de algum e de todos!

Espero que alguém nesse jardim esteja a congeminar outra revolução pacífica porque isto é demais! Carambas!

Pronto, já desabafei...Agora vou voltar ao trabalho e este fim de semana continuar a reclamar do preço do camarão em Moçambique ;)

19 de outubro de 2011

MOMENTOS CANON- um simples desabafo..ou dúvidas ideológicas..

Há já muito tempo que várias pessoas me pedem para deixar um registo escrito desta minha experiência profissional em Moçambique. Sempre fico com dificuldades para me sentar e escrever qualquer coisa.. Não por falta de histórias ou de opinião muito própria mas porque não quero correr o risco de desrespeitar as pessoas com quem trabalho, quer sejam colegas directos ou parceiros moçambicanos, e acima de tudo, porque tenho uma obrigação moral e contratual de manter confidencialidades.. whatever that means..


Mas, efectivamente e após mais de 3 anos e meio no Chokwe, envolvida nesta luta global que é o controlo da malária (ou a sua tentativa..), que me sinto cheia, inundada, carregada de tantas mas tantas histórias que me parece que já foi há uma vida que vim para cá e me meti neste mundo da ajuda humanitária e dos doadores internacionais. E daí nasceu esta vontade miudinha crescente de desabafar um pouco..


No mundo de hoje, com troikas, FMI, capitalismo, desigualdades sociais, governos corruptos, escassez de recursos, lobbies económicos, e tantos outros termos que nos causam comichão, parece um pouco disparatado andar a falar de apoio internacional aos países sub-desenvolvidos.. a mim, pelo menos.. parece-me algo desenquadrado. Senão, vejamos:


- a ajuda internacional para projectos como o meu, ou qualquer outro na área da saúde, educação e desenvolvimento, quer seja na ordem de grandeza dos bilhões de dólares (vindos maioritariamente do Tio Sam), dos milhões de euros (vindos desse nosso grande pais que é a UE..) ou dos kg de alimentos e livros doados directamente pelo público, está envolvida numa nuvem de mentira e ilusão que serve apenas 2 propósitos: um, de aliviar as consciências pesadas do mundo ocidental que ao enviar ajuda, acredita piamente que está realmente a contribuir para o desenvolvimento dos países pobres; dois, de manter um sistema devastador e insustentável, que permite a exploração dos recursos naturais destes países e a perpetuação de governos corruptos e das desigualdades económicas, que se vão tornando cada vez mais gigantescas


- desde o boom da ajuda internacional, em qualquer das suas múltiplas formas, na década de 50, vários foram os autores (empresários, políticos, intelectuais, artistas, activistas, trabalhadores de ONG, entre tantos outros) africanos e não só, que expressaram uma opinião com a qual me identifico cada vez mais: o contexto africano, com toda a sua História pré colonial, com toda a sua profunda cicatriz social, política, económica e cultural dos últimos séculos, conjugado com o ciclo vicioso do “dar e pedir” típico das políticas de ajuda humanitária, não vai permitir maior desenvolvimento nem diminuir o número de africanos que vivem em condições deploráveis, independentemente do nível de apoio dado ou emprestado. Sejamos realistas. África não precisa de mais dinheiro. África não precisa de mais “espertos” a tentar adivinhar como melhorar os sistemas de saúde e educação. O que África precisa é de políticas de intervenção directas e eficientes e de sistemas governativos lúcidos que não se deixem enganar pelas promessas vãs de enriquecimento rápido. E para isto, talvez não seja de todo necessária a ajuda do mundo ocidental.. ou corremos o risco de transformar o berço da civilização em mais um escravo do Big Brother.


- nos últimos anos, com a crescente crise financeira mundial e consequentemente, a diminuição do nível de ajuda internacional, tem sido cada vez mais óbvio o elevado grau de dependência dos países sub desenvolvidos. Está patente que os bilhões (não sei se têm noção, mas são mesmos bilhões de dólares, que todos os anos entram nestes países..) de ajudas vindos no passado tiveram o seu impacto positivo. A nível imediato e discutível. De que serve alguém construir unidades sanitárias no meio do mato, se depois não há pessoal qualificado para lá trabalhar e os partos continuam a ser feitos por serventes sem formação adequada? Ou equipar um laboratório de uma destas unidades sanitárias, com aparelhos do melhor se depois não há dinheiro para a energia necessária para o seu funcionamento? E se o painel solar, que a mesma ajuda financiou para garantir o fornecimento contínuo de energia, avariou porque foi indevidamente usado para carregar telemóveis de gente que não tem energia nem água potável em casa? Ou de que serve gastar milhões em medicamentos e testes de diagnóstico se a central encarregue da gestão de stocks nacionais não consegue planificar devidamente o ciclo de aprovisionamento e deixa os artigos, tão em falta no meio mato, expirar o prazo sem sequer sairem do armazém na capital? Toda esta ajuda, que agora e já há algum tempo, começou a ficar comprometida por essas complicações económicas do sistema capitalista ocidental, define claramente o futuro caminho destas nações: caos, pobreza e dependência. Tudo exacerbado a um nível extremo que me causa nauseas e insónias..


- ainda assim, acredito na grande contribuição dos pequenos nadas. Acredito naqueles, que destituídos de grandes ideiais de mudança, dão o verdadeiro sentido ao termo “ajuda ao desenvolvimento”, que negam a pequenez da caridade que tem sido a ajuda humanitária (de que serve um enorme esforço para alimentar uma criança a farinha de milho se ela vai sofrer consequências graves, sociais, intelectuais e psicológicas, no seu futuro, por não ter tido acesso a uma dieta equilibrada, repleta de todos os nutrientes essenciais? Ou se ela vai morrer brevemente porque na sua aldeia acreditam que a malária e o HIV são doenças provocadas por espíritos e não a levam ao hospital?) e que, do nada, do insignificante e do fundo do coração.. Contribuem verdadeiramente para a melhoria de vida das pessoas com quem trabalham, sem ilusões de grandes alterações nacionais ou dos sistemas de saúde e educação


- acredito ainda que cabe aqueles que se movimentam nos meandros da política (cá ou aí), garantir que a ajuda humanitária é muito mais que esta simples caridade que se tem visto. Muito mais que simples transformação de valores para impor a forma de trabalho ocidental. Que a contribuição do povo "civilizado" serve realmente para ajudar ao desenvolvimento dos países pobres, através do acompanhamento constante do uso dessa ajuda, que pode ser feito através de tantos e eficazes métodos, como alguns já demonstraram.


- e acredito também que a maioria dos africanos gostaria de parar de pedir.. de parar de ser explorado, interna e externamente.. de parar de viver na miséria.. de parar de ter estrangeiros a mandar palpites…


E como o título dizia.. há momentos da vida em sofremos abalos fortes nas nossas ideologias.. quando nos deparamos com crianças pequenas, de cabeça pendida, de olhos nervosos e o corpo a ferver.. e nos apercebemos que se calhar, mas talvez com muita probabilidade, o nosso trabalho e toda a ajuda internacional, não vão ser nenhuma variável na equação que dita o fim desta vida…


E pronto..foi só um desabafo em dia de tolerância (o Presidente Samora faleceu nesta data, em 1986, sabiam?! Uma informação gratuita da Blackiepedia em dia de indignações :p)

25 de agosto de 2011

MOMENTOS CANON- concerto orgásmico

Uma cebola pequena, meticulosamente cortada em tiras finissimas. Entra para uma salão de azeite borbulhante e aguarda impacientemente a chegada de um pequeno alho, bem picado em pequenos quadrados.


Valsam os dois, ao som daquele azeite fervilhante, marinando lentamente, emanando o tipico e delicioso odor do nosso refogado tão português.


São bruscamente interrompidos pela entrada dos pedaços de tomate, grosseiramente despedaçados. E a valsa transforma-se bruscamente numa...complicada mazurka, inundada de molho avermelhado.


É então que são chamados os três pimentos verdes, de pele luzidia, em pequenas tiras e sem sementes, para entrar na festa e acalmar os animos.


Festejam todos juntos, demoradamente ao som do batuque de mais duas frescas malaguetas, que obviamente comandam a orquestra.


O conhecido refogado deita agora cheiros africanos e pede mais emoção no compasso da dança.


Ei-los quase em extase. Borbulham, desfazem-se, emanam odores, exigem uma pitada de sal e avisam que não ficarão à espera eternamente...


Chega então o rei do samba: meio kilo de mexilhão fresquinho, apanhado nessa manhã mesmo à frente da cozinheira e limpo ao som de catanadas por 2 miudos, na praia.


Entram um a um no salão e rapidamente alteram o seu aroma, de spicy africa para costa alentejana...E a festa recomeça.


Cada pedacinho de alho e cebola desliza convenientemente para dentro de cada mexilhão, à medida que estes se vão abrindo ao som daquele azeite, agora pintalgado de vermelho malagueta.


E sambam, sem pressas, até todas as conchas estarem recheadas com aquele delicioso refogado sumarento.


A festa termina com o toque final de umas ervas aromáticas, a avisar que a cozinheira está a babar-se.



E sim,a seguir tive um orgasmo gástrico com esta refeição J

MOMENTOS CANON- uma tisuna no meu quintal

Voltei! tal Fenix renascida!


A ausencia tem explicacao: muitos fogos para apagar no projecto, férias sempre relampago na tuga (este ano acrescidas de alegria pela noticia de vários sobrinhos nascidos ou caminho- sim, definitivamente vou ficar pra tia!), o habitual cansaço extremo, falta de internet ou simplesmente excesso de trabalho...


Mas, como alguém me dizia há muitos anos atrás, a vida é uma carrosel e há que simplesmente " sit and enjoy the rid".. e porque para grande problemas, maiores soluções, as preocupações dos primeiro semestre deste ano foram resolvidas com o tipico desenrasço desta mente brilhante ;)


Então, depois de muitos cabelos brancos novos a aparecerem, para me lembrarem que estou aqui só a segurar as pontas, eis que demos a volta a questão e concretizamos algo que culminou com...um tisuna no meu quintal!! sim, private joke só para a família...


Estamos bem! Afundadas em trabalho, a tentar cumprir expectativas (por diferentes motivos), a adaptar a esta nova condição de vida, a harmonizar a convivência e a sonhar alto com o futuro.

Sem problemas e de sorriso nos lábios, felizes com as reviravoltas de vida :)


Fica a foto, eu e a minha tisuna, no dia 17 de Agosto, dia da cidade de Chokwe, feriado municipal e alvo de mais uma acção do projecto (lá fomos nós matrecar a população com medidas preventicas de malária..).


Isto sim, é que é vestir a camisola, carago!



PS- dah..claro que retoquei a imagem. Não vale nem a pena perguntar os porquês! Ah, e caso não se percebam os dizeres da camisete: " Chute a malária para fora de Chokwe!!!"