8 de abril de 2010

O preço do conforto..

Era uma vez uma alentejana de Lisboa, com manias que tem ligações a África, que decidiu vir viver para Moçambique para trabalhar num projecto de ajuda humanitária e combater a malária.

Cá chegada, achou que teve sorte ao instalar-se numa cabana melhorada, situada num condomínio africano, pertencente a uma congregação de irmãs.
Numa cidade onde as casas, com condições minimamente aceitáveis, estavam já com preços super inflacionados pela presença dos patos bravos da construção civil (que aceitam alugar vivendas ao preço de luxuosos apartamentos na baixa lisboeta), a alentejanita teve a inocência de acreditar que ter por senhoria as irmãs religiosas, lhe daria o privilégio de pagar módicas quantias pelo conforto tão desejado num cantinho que se quer sempre fresco, limpo, seguro e com um belo jardim a alegrar as vistas.

Estava assim estabelecido o equilíbrio entre o frustrante salário de uma expatriada em África, o desconforto do trabalho nómada no mato e o constante desejo de chegar a um lar cuidado e confortável, por um preço razoável e aceitável.

WRONG!!!!!!
Eis que:
A empresa de electricidade de Moçambique decide, e obriga os seus clientes, sem qualquer pré aviso, usar um sistema de pagamento da energia que, à primeira vista parece futurista e inovador, mas na verdade não passa duma roubalheira ao nível dos impostos cobrados aos cidadãos europeus: em Chokwe, todos os habitantes viram os seus contadores de luz serem substituídos por um sistema de carregamento que anula a emissão de facturas e atrasos nos pagamentos- o Credelec.

Passo a explicar. Temos uma máquina à porta de casa que contabiliza o consumo de energia. Quando está a zeros, vamos comprar “crédito” a uma loja. Dão-nos um código, que inserimos na máquina em casa e o valor correspondente ao montante pago, aparece em KW que se vão consumindo à medida que usamos a energia. Parece justo certo? Acaba-se com aquela história das leituras e estimativas e os pagamentos por excesso. Cada um passa a pagar exactamente, e só, aquilo que consome. WRONG!!! Porque ao comprar o dito crédito verifica-se que os KW a que dão direito variam a cada aquisição. Além disso, acrescem-lhe uma taxa de rádio (que eu não tenho..) e de lixo (o meu lixo é queimado na rua pela minha D. L...), cujo valor varia de cada vez que compro o dito “crédito” da energia. Além disso, o consumo de KW também varia de uma forma inexplicável ao longo das diferentes horas do dia e da semana, sem qualquer padrão possível de entender...
Quando consultei um técnico da dita empresa de electricidade, só me pude rir da resposta: “Ah pois é...vais ter dificuldades. Este sistema é o maior roubo legal que a empresa articulou. Não tens mais como fugir. Só podes pagar, se queres fresco na tua casa. E prepara-te para passar a pagar mais sem saber porquê... não vale nem reclamar, só vais zangar à toa!”
Contra factos, não há argumentos...
E pronto...o cantinho fresco, limpo, seguro e com belo jardim, agora custa-me os olhos da cara. Graças ao credelec, aos exageros dos roubos em comida da D. L, aos guardas inevitavelmente necessários numa terra de bandidos e a um jardim que bebe mais água que um caminhante perdido no Sahara..
Estou chateada, pois claro que estou!

17 de fevereiro de 2010

I STILL MISS YOU...

Desde há 3 ou 4 dias que está um calor abrasador, típico do verão africano ainda que este já esteja a terminar..
Hoje não foi excepção.

Acordei com o cântico matinal habitual dos pássaros que vivem na gigantesca acácia do meu jardim e com os raios de sol poderosos a atravessar as cortinas multicores feitas de capaluna, que cobrem as minhas janelas.
Acordei com aquela sensação egoísta, por ser uma privilegiada que dorme no conforto do AC e, ao contrário do resto da população, consegue descansar noites inteiras a fio sem escorrer um único fio de suor.

Saí para trabalhar, eram as 6 da matina. Mal abri a porta casa, fui bafejada pela calorosa realidade de África: céu de um azul indescritível, plantas e árvores do jardim um verde clorofila brilhante, solo castanho e cheio de rachas onde não cai a água, e...o bafo de calor e humidade que me fizeram agradecer os privilégios de expatriada e suor em bica nos 5 metros que percorro de casa ao carro.

Passei 7 horas em trabalho pelo mato, visitando unidades sanitárias e dando formação a técnicos de saúde. Debaixo dum sol e calor abrasador, claro. Escorrendo suor em cada minuto, sentindo o cheiro a dejectos de morcego dentro de cada sala a penetrar e ferir os meus pulmões, invejando as mulheres e crianças que esperavam pacientemente a nossa saída para poderem ser atendidas, em cima duma esteira...dormitando, dando de mamar, entrançando os cabelos à irmã do lado..
De volta ao escritório, invadida por um cansaço resultante do calor excessivo, vi pela janela do meu gabinete, o dia a mudar..o céu a escurecer, a humidade a aumentar, a energia a ser cortada de 5 em 5 minutos e as primeiras gotas a começarem a cair.

Finalizei a jornada de trabalho muito cedo (para o que é habitual) e decidi regressar a casa.
A chuva intensifica-se. Da porta do escritório ao carro, fico encharcada da cabeça aos pés. Salto poças feita ginasta olímpica. Dou boleia a um colega e no caminho para sua casa, a chuva já aumentou tanto que deixamos de ver a estrada. Deixo-o no destino e rumo ao meu quintal. Sou obrigada a abrir as janelas porque o vidro está demasiado embaciado. Sinto gotas do tamanho de bolas de ping pong a cair no meu braço. Ultrapasso 2 homens numa bicicleta a cair de podre. Encurvados sobre si mesmos. A escorrer água. Descalço, um deles pedala como se as suas vidas dependessem da rapidez a que os pedais giram. Quando passo por eles, olham-me com inveja. Sinto-me novamente uma privilegiada. Egoísta. Olho para a frente, um velho com um saco plástico na cabeça acena a pedir boleia. Finjo que ignoro e continuo caminho. Entro na minha rua e quase atropelo 2 perus em fuga, procurado abrigo do dilúvio, pois esta chuva não descrimina humanos dos animais. Reparo então na cara triste das crianças sentadas a beira das poças de chuva, que ficaram impedidas de brincar pela chuva. Reparo na jovem adolescente, parada na berma, a olhar pró infinito como se esperasse ser salva de toda a chuva que lhe encharca as roupas até terem aspecto de pesarem kilos. Mais à frente, outro jovem brinca com uma sombrinha, rodopiando-a tal Frank Sinatra. Só lhe faltar cantar à chuva.
Entro no meu quintal. É o caos total. Não há estrada. Só água. As casas são ilhas solitárias e o chão ameaça deixar-me enterrada no matope. O J. acena um adeus da sua porta, com um sorriso daqueeeeeles. Tem a sua família sentada na chão da casa, a beber refrescos e rodeados de brinquedos.

Passaram-se menos de 10 minutos desde que deixei o escritório. E a chuva não pára de cair, cada vez com mais força. Saio do carro, que agora está lavadinho e procuro o meu caminho para chegar a casa. Fico com os chinelos enterrados no matope ao segundo passo. Amaldiçoo-me por não ter antecipado aquela armadilha e sigo descalça. A chuva já me deixou toda molhada neste momento, pelo que páro um segundo para apreciar o meu jardim. Prevejo que vai morrer afogado neste exagero de água.

Entro em casa e antes de fechar a porta, vislumbro o céu. O azul matinal transformou-se num cinzento escuro, feio, triste. A temperatura desceu repentinamente e parece-me agora que as plantas gritam por socorro. Penso “onde estarão abrigados os pássaros”. Sou invadida pela sensação de pequenez humana, à mercê dos desígnios da mãe natureza.

Deixo-me ficar na soleira da porta, pés descalços sujos de matope, a olhar para este espectáculo. Penso que esta carga de água é abusiva e não vai ajudar ninguém.
Que é apenas um castigo.
Uma revolta.
Uma zanga do planeta.
É isso. O dia está zangado.

E então lembro-me. Amanhã será dia 18... O dia também estava zangado há 2 anos atrás...choveu raios e coriscos e ficámos rodeados dum semblante escuro e carregado de tristeza.. tal como agora.

Entro em casa e assisto calmamente ao evoluir desta tempestade tropical. Agora vêm os trovões e relâmpagos, que nunca deixam de me surpreender. O alarme do carro dispara a cada romboada do céu. A chuva intensifica-se cada vez mais e eu imagino que o meu tecto não vai suportar tanta água raivosa.
É isso.
O ceú responde com trovões de raiva pela tristeza trazida pela chuva... e escorre uma gota de água pelo meu rosto, com saudades dos dias de céu azul que passei na tua companhia..

13 de janeiro de 2010

I have a question, please

E só assim de repente, tenho uma pergunta:
Em mais alguma parte do mundo é feriado nacional quando um novo (ou velho) presidente de república toma posse?!!?
Bom, eu não me vou queixar muito porque amanhã estou de folga.
Para poder assistir de perto às festividades da tomada de posse de Sua Excelência, pela TV....
Já referi que esse aparelho é inexistente na minha casa, certo? Mas seguro que devo encontrar um nas dunas do Bilene ;)

FELIZ VINTE DEZ!!!!

E aí está!
O primeiro post de 2010! Que em terras a sul do Equador se diz “vinte dez” e não “dois mil e dez”...tretas de sul africanos orgulhosos por serem os anfitriões do Mundial 2010, pois então.

Reparo agora no post “glicodocearoçaratristezatipícadeumaexpatriadaqueviveláaaaalonge” que deixei no dia de natal...ó minha nossa! Como é que o A. me deixou fazer isto?! Onde é que eu tinha a cabeça para ter escrito tais coisas?! Parecia uma Da Vinci...valha-me....être louvé, na gíria de ano novo do Chokwe :p)
Ai...esperem...já me lembro...estava embebida de um espírito natalício regado de 3 garrafas de Adega de Borba de 98, obrigatórias para esquecer a dor de ter ficado sem ceia de Natal.. pois foi. Olha..acontece.

Bom, o que interessa é que começamos o ano tal Fénix renascida!
O vinte dez trouxe um novo ânimo ao trabalho e à dinâmica do escritório de Chókwè, com maningue pessoas novas, cheias de vontade de escravadarem. E eu, vou na corrente..

Em muito contribui para este espírito positivo os dias de descanso pós Natal:

- relax total na verdejante Swazi, a mimar o corpo e a alma com sonecas dormidas à sombra de palmeiras gigantes, embalada pelo chinfrim dos macacos locais e a apreciar o turismo rural nesse reinado de palmo e meio

- bronze dos grandes, apanhados no último dia do ano, 200 km abaixo do Durbão (sim, Durban, para os que gostam de ser precisos). Na verdade, acho que fomos até ao pólo sul e quase me lembro de ter acenado um pinguim em marcha láaaa ao longe J
O sol sul africano não brinca, pessoal. Creio que foi a primeira vez que esta vossa preta apanhou um escaldão tão grande em tão poucas horas! De tal forma, que ainda estou a pelar e, claro está, a obrigar-me a um regime forçadíssimo de exposição ao astro rei aos finais de semana, para contrariar esta maldita muda de pele que fez das minhas costas um mapa mundi. Um trabalho difícil, como podem imaginar. Tenho consciência que isto pode provocar algumas invejas nos mais inconformados com o gélido inverno europeu mas convenhamos, cada qual luta pelo que quer e eu.. fugi desse frio! Agora tenho que aguentar com os comentários tipo “tens um padrão esquisito desenhado nas tuas costas..não tens uma doença de pele qualquer? É contagiosa?” Again, cada qual dorme na cama que faz :p)
Percorremos km e km e km de auto-estradas na costa Este de África do Sul. São em tudo iguais às nossas. Até no abusado valor das portagens. De referir o pequeno pormenor que entrei nestas estradas sem um único rand na carteira e os cartões multibanco foram deixando de funcionar à medida que avançávamos nas portagens. Resultado: ao último pedido de pagamento, fui forçada a “subornar” a portageira (esta profissão existe?!) com os poucos dólares que tinha, para que me deixasse prosseguir pois não tinha como pagar...valha-me o desenrascanço tuga e a total falta de vergonha na cara..
O destino foi a casa de um amigo perto de Port Edward (sim, quase a chegar à Antártida), na província de KwaZulu-Natal. Para os mais curiosos, o nome deriva do facto do meu conterrâneo Vasco da Gama ter aterrado no Durbão no dia de Natal de 1497, um ano antes de ter chegado à India (uma informação exclusiva da Betopédia. Para mais informações, visitar o seu blog asuldomundo.wordpress). Com um pouquinho mais de esforço e de melhorias na gestão do reino durante os Descobrimentos, os boers sul africanos seriam hoje...tugas!
Esta província é ainda o berço do povo Zulu e está repleta de marcos históricos e tradições por todo o lado e, como não podia deixar de ser, de referências ao Shaka Zulu, grande rei e senhor que lutou contra a invasão dos boers, defendendo o seu território. Ou atacou e dizimou dezenas deles.. A opinião varia conforme a pessoa que conta a história... Enfim, uma canseira, para absorver tanta informação.
Para mim (ou nós, o grupo de amigos que decidiu fazer este interjipe africano) o que contou e ficará na memória foi ter passado o último dia do ano enterrada na escaldante areia da costa sul africana, a brincar nos vagalhões do Indico, que em muito se assemelham ao Atlântico a reclamar contra as falésias do Porto Covo nas noites de tempestade de inverno e nos relembraram o respeito que o mar merece e exige.
É de facto diferente. Imaginar-vos todos aí encasacados, a curtir o quentinho da lareira e nós...de bikini e a beber cervejinhas geladas na praia!

- festa na praia na passagem de ano. Todas as passagens de ano em que estive na praia (em, pelo menos, algum momento da noite) foram das mais geladas e desconfortantes da minha vida. Daquelas que nos fazem afirmar os típicos clichés “do frio é psicológico”. E repetimos tanto, que até acreditamos.
Pois, a entrada no vinte dez passou-se com um leve vestido de algodão sobre o corpo, de pés descalços enterrados na areia e bebida gelada a escorrer na garganta. Sem um único queixume excepto o “mas porque é que este gajos aqui ao lado decidiram fazer uma fogueira se está um calor do caraças?!” E esse calor, não tinha nada de psicológico. Até se agradeceram as pequeninas gotas de chuva que caíram, a anunciar o vinte dez.
De resto, foi tranquilo. Comigo a melhorar as técnicas de bilhar ;)

- regresso ao calor do lar xokuense, onde a subida dos termómetros bateu nos 40 graus e desencadeou chuvas daaaaaaaaqueeeeelllllasss. Para não esquecermos que isto é África, óbvio.

Pois, tal Fénix renascida...vou voar cheia de garra, ou caso contrário, tou a pedir facas como prenda atrasada de Natal que podem enviar pelo meu pai, e já agora escolham o pulso que devo começar a cortar primeiro porque este projecto mata-me de stress logo assim no início do ano...

Just kidding. Escolho a via da luta armada contra as sedes em Lisboa e seguro que nada vá a passar (ah, sim..passo a avisar, a minha nova coordenadora é espanhola pelo que ahora hablo una língua muy esquisita, lo portunhol, porque senon ninguém me intiende!)

Besitos e hasta breve nenos :)

25 de dezembro de 2009

O 1º Natal em Natal em Africa!

Passa da meia noite...em Moçambique , pelo menos :p)

Comuniquei com os EUA, Itália, Holanda, Marrocos e Japão, entre outros.

Falei directamente com Castelo Branco, o Mangue Seco, Azeitão, Aveiro, Lisboa, Porto e Santo André, entre outros...

Já derramei muitas, silenciosas e escondidas lágrimas...

Natal não é Natal, quando não se está rodeado das pessoas que se ama, ainda que se sinta o carinho, saudade e afecto longínquos....ainda assim, tenho o coração cheio.

O Natal em Chokwe é diferente:

- tarde no orfanato de Chiaquelane...sem palavras. Para aqueles que já o conhecem um pouco pelas minhas descrições, podem imaginar a alegria das crianças por receberem uns balões e umas bolachas extra...e a minha sensação ao pensar na diferença do natal vivido pelas crianças da minha vida, na Europa...conitnuo sem encontrar razões para tamanha discrepância...e sem entender porque nos damos ao trabalho de comprar um montão de prendas quando o que realmente interessa é o esforço pessoal que pomos em cada entrega...a cada pessoa em individual e não no valor que gastamos e nos custou a ganhar...







-o jantar de Natal..esse, foi o mais inédito da minha vida! Na tentativa de trazer um pouco das tradições familiares para a nossa ceia, eu e o A. decidimos grelhar bacalhau e comer com umas belas batatas a murro esta noite...plano furado!!!!

A Pulgui (sim, G, a tua cadela!), num momento de aflição em que tentávamos controlar as brasas do nosso grelhado, roubou-nos o delicioso peixe comprado no inicio desta semana em Maputo e, sem que dessemos conta...ficámos sem jantar!!! Inédito! Nem queríamos acreditar! Sobrou apenas uma pequena posta, que, tal como a minha avó teria feito, e graças aos conselhos online da minha mãe, ainda salvaram a ceia de Natal!!! Uma pequeníssima, tipo micro posta de bacalhau, com muita cebola, alho, ovo e batata fizeram as delicias destes 2 expatriados que passaram a noite a receber telefonemas intercontinentais e a tentar esquecer a distância que nos separa daquilo que é o " nosso natal"... felizmente, somos pessoas civilizadas e de mente aberta...e o natal, esse, ficou minimamente salvo...







Desta noite, apenas vamos recordar ( graças às várias garrafas de vinho bebidas ;p) um episódio deveras engraçacado com uma cadela matreira que nos obrigou a reformular a ceia de natal e uma noite de muita, mas mesmo muita saudade de todos vós... e um calor abrasador que nos obriga a ir à praia amanha...ou não fosse este o 1º natal em africa:)

20 de dezembro de 2009

"Dá bá à xará, Chica!"

São 20.30 de domingo.
Está um calor abrasador, típico das recordações de qualquer retornado.
O ceú, esse está negro, carregado de nuvens assustadoramente grandes e que voam pelo céu que nem doidas.
Vejo uma réstia da pouca lua que existe a crescer, tapada de nuvens mas que parece iluminada por um holofote.
Lá, bem ao fundo, é a claridade total. Trovoada, relâmpagos como eu nunca tinha visto na vida. Daqueles que iluminam tudo e todos. Que nos fazem pensar duas vezes se teremos um amanhã.
Já conheço este filme de outras noites. Este calor e humidade estonteantes, este céu iluminado de branco quando está noite....é sinónimo de chuva da grossa durante a noite. Amanhã de manhã, teremos maningue matope por todo o lado e o pessoal feliz porque caiu água para regar as machambas. E o calor estará lá na mesma para nos recordar que isto é África.
Tenho muita mas mesmo muita pena de todas vós aí no frio. Disseram-me esta tarde que há zonas em Portugal com -13 graus..Chipa!!! Bota frio nisso! Estamos oficialmente com mais de 40 graus de diferença. Vinde para cá minha gente, é o que vos digo.
Esta tarde chegou a ultima equipa do inquérito CAP, de volta após uma semana láaaaaaaaaaaa, em Nhanguenha, onde não há luz nem água canalizada. WC então, nem se fala..
Foi o fim oficial desta etapa do CAP. Não significa que entrei de férias mas sim que......I´M FREE!!!!De gente complicada e frustações diárias. E já já, daqui a nada, estarei de férias :)
Curiosamente, o que me alegrou hoje não foi ter chegado ao fim daquela ingloriosa tarefa do CAP... mas sim os 10 minutos ao final da tarde, que passei com a minha dona L.
Passo a contar: é Natal. Quis, tal como no ano passado, oferecer-lhe algo que o marido não bebesse ou as filhas não vestissem. Algo tipo comida para 1 mês, que foi a prenda do ano passado. Mas não quis repetir a graça e vai daí encomendei um cabrito aos colegas que tinham ido láaaa, para Nanguenha, onde uma cabra de 6 ou 7 meses me custou a módica quantia de 500 meticais...(qq coisa como um pouco mais de 10 euros). O que se segue é a parte da nossa conversa, mantida na berma da estrada, onde a chamei com a desculpa de querer pagar o salário, na presença do V. e da Chica, a neta mais nova de dona L. filha duma filha com menos de 20 anos e que já tem outra filha, as duas crianças sabe-se lá vindas de que pais (e motivo pelo qual eu me transformei na fornecedora mensal de preservativos para aquela familia..):
"Minha L., trouxe também um presente de Natal para si. Está lá atrás na caixa do carro"
O V. abriu a lona e já a guinchar, uma cabra malhada, maningue selvagem a querer saltar.
"Ah! Oh! Minha nossa! Não pode ser!Meu deus!"
Beijos e abraços ao V. e a mim.
" Dona L., mas esta não é para comer agora na quadra. É para criar, que ainda é pequena. E é fêmea, quando chegar à altura certa, tratamos de arranjar macho e assim pode ter a sua criação de cabritos, tá bem?"
" Oh, sim!! Com certeza, esta há-de dar parto a maningue cabritos! Vê-se que é boa!"
Troca de olhares entre mim e o V. , desconfiados se a cabra há-de sobreviver até ao final deste mês..
"Sim dona L. mas temos que ter certeza que a trata bem, tem que dar água e por a pastar. E tem que amarrar bem de noite para não roubarem como fizeram com cabritos que tinha antes"
" Sim dotozinha, hei-de deixar na minha mãe. Lá tem curral e ela fica segura"
Nisto, a cabra dava pinotes que nem uma montanhesa enquanto a dona.L a tentava controlar, sob o olhar atento da Chica, a neta de 2 anos, que sentiu tamanho curiosidade pela cabra, que ia levando com ela em cima.
"Dona L., leve essa corda. Vamos desamarrar as patas de trás e pode puxar a corda, para a levar até casa"
"Oh! A dotozinha é mesmo minha mãe. Como fazer para agradecer?!"
"Nada dona L. Só não a coma já porque queremos que dê cabritos que vocês podem comer mais tarde. Olha como a Chica gostou dela! Parece que tem mais uma amiga para brincar"
" Pronto minha mãe. Vou então, dar água ao animal que tá com cara de sede. Shiii, e viajou maningue hoje! Coitada"
"Tá bom dona L. Resto de boas férias e bom natal"
" Chiiiiica! Dá bá à xará e diz obrigado"
"Bigada xará. Chica dá bá"
Eu baixei-me e recebi o beijo mais repenicado desta criança fofa, fofa, que nunca tocou noutro branco que não fosse eu. E pessoal..acreditem que é um processo longo, convencer uma criança moçambicana a deixar-se pegar ao colo por um branco quando os menos escuros que ela viu na vida são mulatos bem queimadinhos do sol...
Ficámos então ver a minha xará de 2 anos e a dona L. a ir embora, debaixo dum sol gigante, já a pôr-se, enquanto a cabra gania e dava pinotes como eu nunca tinha visto....
PS: para quem não percebeu, ba é um beijo. E xará é toda e qualquer pessoa que tem o mesmo nome que nós.
Ba quentinhos e suadinhos para todos vocês aí no frio :)

14 de dezembro de 2009

" O interesse em subir a montanha está no caminho e não na chegada ao cume"..Says who?!?!?!

As pálpebras abriram-se.
Os neurónios acordaram.
O cansaço foi vencido pela força de vontade brutal que apareceu sorrateiramente vinda do nada.
A ameaça de sucumbir ao desespero e frustação foi finalmente vencida.
E por fim, os pelos da pele espivatam-se com alegria pela contagem decrescente:)
Falta menos de uma semana para chegar ao fim deste desconcertante inquérito megalómano que me fez sentir na pele a escravidão laboral :)

Não tinha explicado o que é este inquérito? Este maratona hiper cansativa de trabalho que me impuseram nas últimas semanas? Opah! Sorry. Onde é que eu tinha a cabeça?

Pois passo a explicar: uma das actividades que deveria ter sido realizada logo no início deste projecto em que eu entrei de cabeça e sem qualquer pré aviso das consequências físicas e morais que trariam à minha pessoa, tem o acrónimo CAP: Conhecimentos, Atitude e Práticas. Neste caso, sobre malária. É um instrumento usado para ficar a conhecer os conhecimentos, atitudes e práticas da população em relação à malária. Dahhh.

Pois para isto, formámos equipas de inquiridoras e técnicos de saúde para partirem para as aldeias e, casa a casa, irem fazer inquéritos às mulheres sobre os seus conhecim...bla bla bla e prátic...bla bla bla e atitude...bla bla bla de malária. Não contentes com esta árdua tarefa, achámos que seria interessante aproveitar a oportunidade para colher amostras de sangue às mulheres e crianças para os mais varidos fins.

Resultado: várias equipas a trabalhar simultaneamente em várias aldeias, a fazer os ditos inquéritos e colheitas.

O timing..perfeito. Coincidiu com a saída da minha xará e ainda não chegada da substituta. Pelo que quem ficou a orientar esta epopeia?Sim. Aqui a happy flower, rainha do caos e amante da perfeição nas horas vagas..já tão a ver o desarranjo emocional em que fiquei..

Macuachane, Manhiça, Sifo, Acordos de Lusaka, Chibabel, Nhimbayinwe, Mavodze, Conhane, Combomune, Matidez, Tomanine....a lista de aldeias pelas quais já passámos é interminável..

Muito calor, ou chuva e vento, refeições péssimas, horas de estrada e buracos, frustações, desalentos, arrogâncias, curiosidade, colaboração ou admiração..alguns dos sentimentos vividos ou partilhados nestas ultimas semanas.

Não tem sido fácil. Também não me tem feito mal. Nos intervalos...a luz dum pôr do sol, a cor viva do mato, a alegria das crianças a brincar, o sorriso das mães a dar de mamar enquanto são entrevistadas e um ou outro animal selvagem a brindar o dia. Pequenas alegrias que fazem esquecer a dureza da coisa.

Mas estou cansada. Mais psicologicamente que fisicamente. O corpo recuperará, por certo. A mente...essa divaga pelas férias ansiadas ou pelo futuro que se quer diferente. Menos escravizador, de preferência :)

Não consigo ter a noção que é quase Natal. Onde está o rodopio das prendas e a confusão da minha família?! Não consigo acreditar que em 1 mês o meu paizão há-de chegar!!! Não consigo imaginar que em 2 semanas estarei nas cataratas de Vitória (!) ou que passarei o ano mergulhada no calor do Indico...

É um mix de cansaço, frustação, saudade, desânimo e ânsia...e acima de tudo: alegria! Porque só faltam 5 dias para terminar!

E eu vou sobreviver minha gente. Ó se vou! Tem sido muito bom, grata pela experiência profissional e ganhos pessoais mas, cá para mim..enough is enough! Tou pronta para outra e não do mesmo. Cá nos veremos na próxima saga do meu capítulo Escrava Isaura mas de momento quero é FÈRIAS!!!!

Beijos cheios de saudade para todos..